Desert Road

Minha vida com a Simca – Marcelo Viana

Já vai bem longe o ano de 1964, quando tive o meu primeiro contato com a Simca. Foi através de uma Jangada adquirida por meu pai em janeiro de 1964, com poucos meses de uso, já que o seu velho Desoto 1952 azul não inspirava confiança para a longa viagem de férias que ele pretendia fazer com a família de Belo Horizonte até Cabo Frio.

Não que eu me lembre dos fatos, pois com apenas dois anos eu fui me revezando entre os colos da minha mãe e da empregada, no banco da frente – os conceitos de segurança eram outros...

 

No banco traseiro mais três irmãos, nos dois banquinhos do porta-malas os outros dois irmãos se ajeitavam entre a bagagem. E no bagageiro sobre o teto muita tralha. Meu pai contava que o carro se comportou muito bem na estrada, apenas esquentou um pouco na chegada devido a um pequeno problema resolvido com a ajuda de um motorista de táxi cabo-friense. Quando vendeu o carro com 30.000 km, ele mandou adiantar o velocímetro para 65.000 km porque os compradores, desconfiados mineiros, achavam que o carro tinha 130.000 km.

 

Tenho algumas lembranças da Jangada placa AG 2219 (Item 1 no menu de fotos), vendida em 1971 por Cr$ 2.500,00 (dois mil e quinhentos cruzeiros) dos quais o comprador deu o cano em Cr$ 200,00. Gostava de ficar dentro dela na garagem, brincando ou usufruindo de um pedacinho do mundo que naquele momento era só meu.

 

O seu cheiro e o barulhinho gostoso do relógio elétrico nunca esqueci, os sons do rádio por vezes completavam o quadro.

 

Certa ocasião passávamos pela praça Hugo Werneck, no bairro São Lucas. Sentado no banquinho do porta-malas, subitamente tive a má ideia de me levantar. A mola muito forte que fazia o banco retornar à posição original foi a causadora de um grande barulho, bem menor do que a bronca que levei por ter assustado o meu pai que, se não estivesse dirigindo, teria me trucidado. “Pensei que era um carro batendo na nossa traseira”, ele berrou. “Saia já daí, sente-se no banco”.

 

Outra lembrança é do discurso de posse do Presidente Médici, que ouvimos também no rádio da Jangada enquanto ela era abastecida no posto do Seu Ademar na rua do Ouro, bairro da Serra.

 

Vendido o carro, durante muitos anos não mais ouvi falar de Simca. Aprendendo a dirigir, minha paixão automobilística eram os Dodge que marcaram alguns inesquecíveis e irresponsáveis pegas nas ruas e avenidas de Belo Horizonte. Cheguei a ter um Charger RT 1973, preto e dourado.

 

Um dia o meu irmão Roberto chegou com uma conversa de que havia uma Simca muito rara abandonada no passeio de uma oficina mecânica no bairro Alípio de Melo, aqui em Belo Horizonte. Não dei a menor bola. Passados alguns meses, ele voltou insistindo com a história. Antes o dono ia consertar o carro, não pretendia vender. Por isso ele estava na porta da oficina.

 

Caminhoneiro, ele parou na estrada para socorrer uma carreta. Um toco que estava na roda escapou e quase decepou o seu pé. Precisando de dinheiro porque ficou muito tempo sem dirigir, entrou em contato informando que precisava se desfazer do carro.

 

Mais pelo irmão do que por mim mesmo, meio contrariado fui ver o veículo. Um verdadeiro pau-velho (Item 2 no menu de fotos). Mas reconheço que foi amor à primeira vista, tinha até um cachorro amarrado por uma corda velha no para-choque traseiro no qual a sua comida era colocada. Não dava nem para entrar no carro, tudo revirado e muita, muita sujeira.

 

Em poucos momentos estávamos em cima do caminhão. Eu em estado de graça pela velharia adquirida, o carro aliviado por se ver livre do ferro-velho, até então o seu destino mais provável. Era o dia 24 de junho de 1983. A compra da minha primeira Simca ocorreu por Cr$ 300.000,00 (trezentos mil cruzeiros).

 

Era uma Présidence preta, placa AG 3100. Na época eu não tinha a menor noção da importância do veículo, que em 08 de dezembro de 1964 havia sido adquirido pelo Senador Camilo Nogueira da Gama na concessionária Cibrasa, em Brasília, DF, de acordo com o certificado de garantia (Item 3 no menu de fotos) original.

 

Em 14 de junho de 1985 comprei uma Chambord 1965 (Item 4 no menu de fotos) até um rádio-relógio com telefone entrou no negócio por Cr$ 300.000,00 (trezentos mil cruzeiros). O valor da compra foi Cr$ 1.300.000,00 (um milhão e trezentos mil cruzeiros). Com mecânica original, utilizei o carro muito tempo antes de transformá-lo em veículo doador de peças para os demais.

 

Em agosto de 1985, comprei uma Chambord 1963 (Item 5 no menu de fotos) por Cr$ 5.000.000,00 (cinco milhões de cruzeiros). Salvei-o de ser transformado em um hot-car com teto solar, rodas de magnésio e motor de Opala por questão de minutos, já que outro comprador chegou quando eu estava saindo com o recibo do final. O carro estava rodando, o que ocorre até hoje, e da minha coleção é o único que não passou por um processo completo de restauração.

 

A mecânica foi revisada e o motor retificado alguns anos após (era original de fábrica), dei na carroceria um chamado “banho de tinta” para rejuvenescer o carro.

A Jangada 1966 (Item 6 no menu de fotos) entrou para o time em 13 de julho de 1986, ao preço de Cz$ 8.000,00 (oito mil cruzados). Era de Barbacena, MG, mas o amigo João Albino a viu em Sabará, MG, e me avisou, tornando possível a compra. Tinha mecânica de Opala e durante muito tempo rodei com ela, antes do início do processo de restauração.

 

Em todos esses anos a Simca fez parte da minha vida, em alguns momentos mais, outros menos. Meu pai não se conformava com aquele “esporte de gente rica”, minha mãe dizia que o teto da casa iria cair sobre as nossas cabeças com o peso das peças de Simca que estavam no forro.

 

A ideia deste site da Internet foi nascendo aos poucos. Percebi que o material que veio parar em minhas mãos e o conhecimento que adquiri sobre a Simca teriam maior utilidade se disponibilizados para outras pessoas que gostam de automóveis. Certas coisas fazem mais sentido quando compartilhadas.

 

Mas o que realmente me fez tomar a decisão de criar este site foi a grande honra e felicidade de conhecer pessoalmente Hélène Pasteur e Gilberto Baeta, e também um pouco de suas vidas e seu trabalho na Simca. Não só pelo material fotográfico e as informações que eles me passaram, mas também pela percepção de que eles simbolizam uma época muito importante na história recente do nosso Brasil, que precisa ser mais valorizada e divulgada.

Como os demais veículos produzidos na primeira fase da indústria automobilística brasileira, a Simca era um carro que na sua origem (França) já havia cumprido o seu ciclo.

 

Alguns milhões de dólares a mais não fariam mal se vindos de um pequeno investimento de montagem da fábrica em um país tupiniquim do terceiro mundo ávido por crescimento industrial.

 

Simplesmente trouxeram para o Brasil veículos que não eram feitos para rodas em nossas ruas e estradas, que não foram projetados para enfrentar a diversidade do nosso clima e topografia. Ocorreram testes em alguns Chambord franceses que vieram de avião, mas o resultado inicial do Chambord brasileiro não foi dos melhores.

 

Contou-me Hebert Cohen, dentista de São Paulo, que ao adquirir o primeiro Chambord vendido em Santo André, SP, no primeiro final de semana saiu orgulhoso para um churrasco e encheu o carro com os amigos. Não passaram da primeira rampa, todos tiveram que descer simplesmente porque o carro não subia.

 

De fatos como esse veio a fama do Simca de Belo Antônio. Mas alguns anos depois, ao testar o Chambord Emi-Sul a Revista Quatro Rodas o definiu simplesmente como “um senhor carro”.

 

E neste ponto é que entra a minha admiração por Gilberto Baeta, Hélène Pasteur e tantos outros brasileiros e franceses que dedicaram uma grande parte de suas vidas e deram muito suor para transformar veículos sofríveis em automóveis confiáveis e de qualidade, principalmente quando considero que a matriz francesa desde o início exigiu lucro sem investir mais do que o estritamente necessário.

 

A Simca do Brasil foi um excelente exemplo de que trabalho árduo, determinação e perseverança são requisitos que, bem agrupados em torno de pessoas valorosas e competentes, podem suprir a carência financeira e levar a resultados bastante satisfatórios.

 

Às pessoas que fizeram a Simca do Brasil é que ofereço este site, no qual fiz questão de utilizar exclusivamente material da época em relação às informações prestadas como também em relação às fotos. Desta forma, ele pode proporcionar a você uma viagem virtual no tempo através de um retrato fiel do breve período em que a Simca esteve entre nós.

 

Marcelo Fernandes Fonseca Viana

Belo Horizonte, MG

 

Bibliografia e fotos deste site:

- Revista Simca, publicação oficial com circulação restrita no âmbito interno da fábrica – doação de Gilberto Baeta

- Revista Quatro Rodas, Mecânica Popular e Seleções da época

- “Dados básicos da Indústria Automobilística Brasileira”, junho de 1969, publicação da ANFAVEA em conjunto com o Sindicato da Indústria de Tratores, Caminhões, Automóveis e Veículos Similares no Estado de São Paulo. Doação de Gilberto Baeta.

- Material publicitário oficial da Simca, feito por ocasião da visita do Presidente francês Charles de Gaulle ao Brasil

- Informações verbais e material gentilmente cedido por Gilberto Baeta e Hélène Pasteur.

Fotos obtidas na internet.