Revistas Simca

Eu não poderia deixar de contar como as Revistas Simca vieram parar em minhas mãos.

 

Há vários anos atrás, eu estava lavando a minha Chambord 63 na casa dos meus pais, que ficava na Rua Palmira n. 400, no bairro da Serra, aqui em Belo Horizonte. Era um sábado. O carro, na garagem, podia ser visto por quem passava na rua. Parei um pouco para almoçar. Quando retornei, havia um senhor encostado no portão, olhando fixamente o carro.

 

Muito admirado, mal podia crer no que os seus olhos estavam lhe mostrando. Há muitos e muitos anos não via uma Simca. Disse que trabalhou na fábrica, em São Bernardo do Campo, SP. Aquilo soou bem distante para mim. Rapidamente, contou muitas histórias sobre a diretoria, sobre a contabilidade, sobre seguros, sobre furtos e desfalques ocorridos dentro da própria fábrica. Falava sem parar, vítima de um violento ataque de nostalgia. Em alguns momentos, desfilaram na minha frente alguns anos da vida profissional de um desconhecido. Confesso que, na hora, não dei muita importância, apenas percebi a sua necessidade de falar e fiquei ouvindo.

Eu até desejei que ele acabasse logo as histórias, pois eu ainda tinha que lavar o carro. Ele disse que também morava na Serra e que tinha algumas coisas para me dar, depois passaria lá em casa. E foi embora e eu, aliviado, pude terminar o meu serviço.

 

Muitos anos se passaram, meus pais morreram, a casa foi vendida. Para mim, a vida continuou, apesar das fortes e bruscas mudanças. Mas a Simca não saiu da memória daquele senhor. Um dia, resolvi comparecer a um dos encontros mensais promovidos pelo Veteran/MG na região da Savassi, o que não faço habitualmente.

 

Mais uma vez aquele mesmo senhor se aproximou, eu nem me lembrava dele. Já estava um pouco “alto”, não resistiu aos embalos da música ao vivo, boa bebida, companhia agradável e belos carros antigos. Disse que não havia se esquecido de mim, marcou um dia para nos encontrarmos que ele ainda tinha aquele material.

 

No dia marcado, compareci ao encontro na União dos Varejistas, no centro da cidade. E foi assim que ganhei mais um amigo, desses que a gente quer ter sempre por perto, e também as Revistas Simca, das quais nunca tinha ouvido falar. Ele as havia colocado em um envelope, no qual escreveu “Para o Marcelo – professor de matemática”.

 

Não sei de onde ele tirou que eu era professor de matemática. Meu coração bateu forte quando ele me passou as revistas. Estavam quase perfeitas, apesar dos 40 anos de idade. Tinham circulação restrita ao âmbito interno da fábrica. Ele me deu também alguns brindes feitos pela própria fábrica: flâmulas, broche dourado, agenda.

 

Até hoje não me canso de admirar essa atitude do Gilberto Baeta, que acabou me inspirando a criar este site. Tantos anos guardando um tesouro e, de repente, ele é passado gratuitamente e espontaneamente para um desconhecido.

 

Essa nobre atitude me inspirou a ceder, também gratuitamente, toda a literatura sobre a Simca do Brasil aos interessados, o que estou fazendo agora, neste site, apesar de boa parte dela não ter sido obtida gratuitamente.

 

As revistas são extremamente raras e, para mim, valiosas, mas o lucro maior foi o contato com o Gilberto Baeta, a quem tenho a honra de chamar de amigo. Foi indescritível a sensação causada pelo reencontro que promovi entre ele e a adorável Hélêne Pasteur, em São Paulo, mais de trinta anos depois de terem trabalhado na fábrica, lado a lado, na diretoria.

 

Nunca mais haviam se visto. Foi uma noite inesquecível para nós três. Esse encontro foi a forma que encontrei de retribuir, um pouco, a atitude do Baeta. E, claro, uma maneira de reunir mais elementos da história da Simca.

 

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