Ricardo Zema

Entrevistado em 2002, via e-mail: Ricardo Zema (proprietário)

 

1) Nome do revendedor autorizado:

 

R. DOMINGOS ZEMA & CIA. - Av. Getúlio Vargas n. 148 - Araxá/MG

 

 

2) Data de início e término das atividades com a bandeira Simca:

 

R. Nomeado em 1960, término em 1976, já com a bandeira Chrysler.

 

 

3) Quais os procedimentos e quais as exigências a serem cumpridas para receber a bandeira Simca?

 

R. Fomos nomeados sem qualquer exigência por parte da montadora.

 

 

4) Por que a revenda onde você trabalhou optou por vender carros nacionais?

R. (sem resposta)

5) Por que foi escolhida a marca Simca entre as demais fábricas nacionais?

 

R. Éramos revendedores da Vemag e perdemos a concessão, então surgiu a Simca.

 

 

6) Como era o mercado brasileiro de automóveis na época? E o peso dos importados ? Havia muita desconfiança dos consumidores, ou pode-se dizer que eles estavam ávidos por possuir automóveis nacionais?

 

R. O mercado brasileiro estava começando e se vendia muito pouco, mas tínhamos muita confiança no Brasil e acreditávamos no futuro.

 

 

7) Como era o relacionamento da sua revenda com a fábrica? Podemos compará-lo com as relações entre as montadoras e as concessionárias nos dias de hoje?

 

R. O relacionamento com a fábrica era muito simples, não tinha muitas exigências como tem atualmente.

 

 

8) Em média, quantos carros a sua revenda vendia por mês? E peças, as vendas eram boas ou o mercado paralelo incomodava?

 

R. Nossa venda mensal era de aproximadamente 3 unidades, como o passar do tempo as vendas de peças e serviços de mão-de-obra tiveram um crescimento, o mercado paralelo não incomodava.

 

 

9) A Simca oferecia boas condições de trabalho para os concessionários, como rápida reposição de peças, ferramental especializado e cursos de treinamento/aperfeiçoamento para os mecânicos?

 

R. As condições de trabalho eram muito simples, a reposição de peças era regular, tínhamos ferramental especializado e quase não tinha cursos para mecânicos.

 

 

10) A fábrica estabelecia cotas de venda?  Ela  sempre tinha veículos disponíveis para entrega ao concessionário?

 

R. Não tínhamos cota e sempre que se vendia um carro a fábrica tinha pronta entrega, sempre tínhamos um carro no estoque.

 

 

11) Na sua revenda sempre havia veículos para pronta entrega aos compradores, ou  eles  tinham que fazer a encomenda e aguardar algum tempo até receber o carro?

12) Qual a forma de transporte dos automóveis da fábrica até a sua revenda?

 

R. Sempre que vendíamos um carro diferente ao do nosso estoque íamos  buscar outro carro, que vinha rodando desde São Bernardo.

 

 

13) A fábrica fiscalizava os revendedores, oficinas e postos de serviço autorizados com rigidez? Ela se importava com a imagem da marca e com a qualidade dos veículos vendidos e dos serviços prestados?

 

R. A fábrica sempre tinha um representante que vinha à nossa revenda, mas eram muito simples as suas exigências, e não se dava muita importância à imagem da marca, a qualidade dos veículos era muita frágil.

 

 

14) Como era o pós-venda? Havia real preocupação com a satisfação do proprietário de veículos Simca?

 

R. O pós-venda era muito fraco, nós, os revendedores, é que tínhamos de fazer este trabalho e a maior parte dos serviços em garantia era feita por nossa conta.

 

 

15) Em julho de 1963 a Revista MECÂNICA POPULAR publicou uma reportagem intitulada Simca - Relatório dos Proprietários, o que também fez com as outras marcas nacionais. Em todas elas os concessionários ficaram em má posição, no caso da Simca 60% dos entrevistas qualificou entre razoável e má a assistência técnica dada pelo concessionário, 38% a disseram boa para ótima, com 2% de abstenção. A quais fatores o sr. atribui este resultado ?

 

R. O conceito da Simca era ruim perante os compradores de veículos, os carros, quando trazíamos de São Paulo para Araxá, muitos davam defeitos na viagem. Quando fazia muito calor, o carro cortava o combustível e tínhamos que aguardar o carro esfriar para voltar a funcionar, ou então teríamos que viajar a noite para não dar defeito, e a maioria dos veículos davam este defeito. Em nossa oficina resolvemos fazer uma modificação na tubulação que levava gasolina do tanque para o motor, passando o cano de cobre que ficava ao lado do escapamento  passando para o lado de fora do chassis, com isto eliminamos o problema e comunicamos à fábrica que passou a montar todos os veículos desta maneira.

 

 

16) Um ex-funcionário da fábrica me disse que muitos concessionários foram aventureiros. O sr. concorda com esta afirmação, e pensa que os aventureiros possam ter prejudicado a imagem dos empresários sérios?

 

R. (sem resposta)

 

17) É verdade que os carros vinham com problemas de fábrica e tinham que passar por severa revisão nos concessionários antes de serem entregues aos compradores, ou a revisão final era bem efetuada na fábrica?

R. (sem resposta)

18) A  garantia funcionava de verdade?  Algum  carro  foi substituído  na garantia? Quais as peças que mais apresentavam problemas e geravam substituição?

 

R. A garantia era muito ruim e não funcionava direito, tinha que levar as peças na fábrica junto com os relatórios para serem creditados, caso contrário a  maioria das vezes não era creditada. Tivemos um carro Emi-Sul, que tivemos de devolver para a fábrica corrigir os seus defeitos, levaram mais de 50 dias para corrigir os defeitos e o carro continuou a dar defeitos.

 

 

19) Quais as maiores virtudes dos veículos Simca? E o maiores defeitos?

R. (sem resposta)

 

20) Na sua opinião e considerando a realidade da época, o sr. pensa que o Simca era um bom automóvel? Por que? Compare-o com os outros nacionais da categoria, JK e Aero-Wyllis.

 

R. O Simca era um bom carro, bonito bem apresentado, mas dava muitos defeitos, que na época ganhou o apelido de  BELO ANTONIO,  porque era bonito mas dava muito defeito. O Aero Willys  era um carro mais resistente, tinha uma mecânica mais simples porém o seu estilo era bem inferior ao do Simca. Já o JK não tinha nenhuma influência em nossa área de atuação.

 

 

21) Por que o Aero Willys vendeu mais do que o Chambord?

 

R. O Aero Willys vendia mais do que o Simca por causa da sua resistência em relação ao Simca, as nossas estradas eram quase todas em terra, o que fazia os clientes preferirem um carro mais resistente.

 

 

22) Qual era o veículo Simca que mais agradava os seus clientes? E de qual eles menos gostavam?  Por que?

 

R. O mais vendido era o Chambord, o Présidence agradava muito mais era muito caro, o Alvorada tinha muito pouca aceitação. A Jangada também tinha uma boa aceitação, porém sua produção era muito pequena. Quando lançaram o Emi-Sul, foi um dos maiores erros da Simca, erro este que só foi corrigido quando lançaram o Esplanada, mas já era tarde, a imagem ficou muito desgastada.

 

 

23) É verdade que os concessionários tinham que "incrementar" o Alvorada e o Profissional com acessórios para conseguir vendê-los?

 

R. (sem resposta)

 

24) Tenho conhecimento de que um engenheiro procurou a Simca e ofereceu o projeto de um novo carburador. Ao dar o preço, teve como resposta que o Simca vendia pela estética, não pelo desempenho. Existia mesmo este tipo de mentalidade?

 

R. Sem dúvida a Simca vendia pela estética e não pelo desempenho.

 

 

25) O sr. visitou a fábrica? Como era ela?

 

R. A fábrica era muito simples, grande para a época e pequena para os dias atuais. Eu sempre ia à fábrica, ia buscar todos os carros vendidos. Ia até Uberaba para pegar o ónibus à noite. Quando chegava em São Paulo, ia da rodovia até o Parque Dom Pedro, onde tinha outro ónibus para São Bernardo do Campo. Quando chegava na fábrica, verificava  se tinha o carro que estava precisando e pedia o preço e tinha que voltar em São Paulo para visar o cheque. Como não tínhamos recursos para pagar à vista, levávamos uma carta de crédito para visar um cheque em nome da SIMCA, voltava até a fábrica de ónibus e só chegava à tarde, onde tinha esperar o faturamento do carro, ir até a delegacia para tirar uma licença para trazer o carro até Araxá, na maioria das vezes o combustível acabava antes de chegar ao primeiro posto de gasolina, que era a 500 metros da fábrica. Eu voltava dirigindo à noite até Araxá, 600 quilômetros de estrada de terra.

 

 

26) O sr. tem conhecimento de que tenha sido fabricada alguma Présidence com uma "separação de vidros corrediços entre os lugares dianteiros e traseiros", que segundo o manual do proprietário poderia ser fornecida "sob pedido especial"?

 

R. (sem resposta)

 

 

27) A sua revenda teve alguma participação em competições com o Simca?

 

R. Nunca participamos.

 

 

28) Quais as maiores virtudes da atuação da Simca?  E as grandes falhas? Por que ela não sobreviveu?

 

R. As maiores virtudes do Simca: era um carro bonito e confortável, que agradou ao consumidor, e sua maior falha foi a mudança do motor, não sobreviveu devido a esta mudança.

 

 

29) Como foi a transição da Simca para a Chrysler?

 

R. Quando a Chrysler  assumiu a Simca, ela ainda tentou modificar e corrigir os defeitos do motor Emi-Sul, mas não conseguiu, o que trouxe muito prejuízo aos concessionários.

 

 

30) É verdade que a Chrysler incentivou a destruição de peças da Simca?

 

R. (sem resposta).

 

31) Como ficou a assistência técnica e a reposição de peças para os proprietários de Simca após o lançamento do Esplanada/Regente e, posteriormente, do Dodge? E as vendas dos veículos Simca já produzidos e estocados?  O seu preço caiu muito? Tenho conhecimento de um ofício da fábrica oferecendo para as revendas uma Jangada Emi-Sul com significativo desconto, encalhada no pátio da fábrica porque ninguém a queria.

 

R. A reposição de peças continuou normal, sempre tinha peças, quando lançou o Dodge  já não era o mesmo estoque de peças para Simca. Todos os carros com motor Emi-Sul eram de difícil aceitação.

 

 

32) O sr. tem conhecimento de que tenha sido fabricada alguma perua Esplanada, em substituição à Jangada?

 

R. Na época foi falado que iriam fabricar a perua Esplanada, mas se foi feito alguma era somente para teste.

 

 

33) Qual o saldo de ter sido um concessionário Simca? Valeu a pena?

 

R. O saldo de ter sido um concessionário SIMCA, para mim foi muito bom, aprendi muito, gostava muito do veiculo Simca, vendemos relativamente bem, fizemos bons negócios e passamos a nostalgia de gostar e sempre ter vontade possuir um Simca,  ainda tenho vontade de ter  uma JANGADA, foi um veiculo que usei muito e gostava e tenho saudades daquela época.